Por fim, um outro recomeço. São umas quatro da tarde e meu bus para Puerto Escondido sai somente às 23hs. Enquanto espero nesta tarde calorenta vou chorando todas as despedidas. Tudo me faz voltar em pensamentos àqueles momentos todos. Até ontem tudo era contato, abraços, companhias, pessoas compartindo suas vidas contigo e agora estou sozinho num longo corredor de rodoviária com assentos azuis e brancos. É um forte contraste. Não é um abandono porque a alma nunca se abandona. É somente aquela força do novo que o destino provoca. Nossa festa de despedida foi bem boa. Também os tradutores de espanhol iam embora e então juntou bastante gente pro evento todo. Tocamos bossa nova, batucamos numa ciranda e a bagunça latino-americana se instalou. Foi incrível como fizemos amigos, tantos amigos. E a despedida foi isso: cerveja, amigos, emails e baile.
No barco tínhamos um grande grupo de jovens japoneses que nos ajudavam com o que necessitássemos. Estavam sempre por perto com suas caras risonhas e curiosidade. Ensinaram-nos um pouco de sua cultura e mostraram o que se podia ver de suas vidas. Em nossa despedida entregamo-nos presentes. A mocinha que falou em nome do grupo japonês, Minami, se emocionou. Sua simplicidade com as palavras, sua maneira de ver as coisas, senti-las e expressá-las foram delicadamente suaves e mostravam também sua dor pela despedida. Ela entregou seu presente para mim já que muitos dias vínhamos conversando sobre muitas coisas. De novo quase chora. Seus olhinhos se mareiam e daí se pôde ver o que pode ser essa tal integração entre mundos tão diferentes. Alegrias e tristezas batem do mesmo em todos. Depois foi toda a festa e o desembarque no dia seguinte. A despedida do Roberto e dos outros bolivarianos e nosso novo hotel e um mergulho no mar de Acapulco. Mais tarde um encontro forte em nossa habitação, cervejas, mundialismos e ressacas compartilhadas entre nós e uns tradutores e staffs malucos. E nesse momento estou sozinho nessa rodoviária, com calor e saudades, com muito sono e doido para ver o que acontece nos próximos 14 dias. ................................................. Devem já ser uma 20hs e pouco. O clima deu uma suavizada e o terminal está mais silencioso. Umas crianças brincam lá no início do corredor das cadeiras. Às vezes choram alto. Não tenho mais tanto sono, não tenho fome e quero de uma vez pegar o bus e acordar em Puerto Escondido e ver o que acontece. Em todo esse longo período aqui, milhões de imagens cortaram minha atenção. Coisas vividas ou cenas inventadas me levavam e me traziam do delírio. Muitas recordações dos amigos deixados para trás, seus sorrisos e nossas relações.
É muito cedo para qualificar ou quantificar o que aconteceu e suas formas todas. Talvez isso nunca venha efetivamente acontecer. O que é real é a saudade de tempos imediatamente passados. Um dia de um novo momento e respiro o ar úmido do choro recente como numa chuva qualquer que caiu o dia inteiro num campo feliz. ............. Em Puerto Escondido o sol se põe no oceano, por detrás de um dos morros da cidade. Seu reflexo alaranjado na água é de alguma beleza. Aí aonde ele vai se pondo , à minha direita, é a praia mais tradicional, calma, uma baía sadia para o descanso. Depois ela se abre na praia de Zicatela, onde estou. Muitos hotéis, gringos e tranqüilidade. Tudo de bom merecimento pela ruim experiência inicial de conhecer o México. Desde o tempo da rodoviária até subir no ônibus uma vibração estranha me atravessava. Pelas três da madrugada fui saber o que era. A estrada pela qual ia o ônibus não era uma autopista, coisa que imaginei para uma viagem de sete horas. Era uma estrada que ia por dentro de cidades, em estradinhas tomadas de quebra-molas. A cada duzentos metros havia um quebra-mola. E num destes, no aquietar-se da vibração, no silêncio total dos passageiros dormentes, uma agitação na cabine do motorista. Eu estava umas quatro fileiras ao final do ônibus e acompanhei quando três tipos com panos na cabeça e armas em punho tomaram de assalto o carro. A falta de luz tornava tudo mais medonho. De todas as formas eu estava tranqüilo, já sabia que algo passaria. Iam pelo corredor pedindo “la lana, la lana!”. Escondi meu passaporte e entreguei 340 pesos mexicanos, algo como 30 dólares. Para algumas senhoras pediam jóias, algo raro, visto que era um ônibus de segunda classe que carregava o espírito do México. Quando iam voltando da incursão ao fundo do bus, algo passou. Mais tarde fiquei sabendo que um garoto não tinha grana e tudo aconteceu, mas na hora, antes desse tudo, escuto um estalo que, mais tarde fui saber que tinha sido um disparo de uma arma muito velha. Esse disparo se deu porque o assaltante golpeou o garoto mas, ninguém sabia até o momento, uma velha que estava ao lado fora atingida. De todas as formas isso impediu o que vinha se desenhando: tudo estava muito fácil e eles preparavam algum pavor maior. Fato consumado, somem do ônibus e passamos algumas horas com a polícia à beira da estrada. Não sabia, soube, como outras coisas que, além dos três caras do corredor, outros dois ficaram na cabine com o motorista. Também soube que aquela rodovia estranha era bem perigosa àquela hora, porém, era um pouco raro acontecer assaltos. Não adiantava muito esquentar a cabeça. Fiquei observando os rostos todos e partimos outra vez para nosso destino. O efeito do acontecido como um trem que explode uma barreira em seu trilho eu sentiria dias mais tarde. O mundo real botava o dedinho em minha nuca e me alertava, "esse não é um mundo de sonhos." Aluguei uma casinha a trinta metros da areia do mar. Descansei num quarto calorento, investiguei pela internet e agora bebia uma cerveja sentado na areia, olhando o pôr-do-sol. As nóias de grana, tempo, vôos, onde ficar e aonde ir são assuntos que acompanham qualquer viajante solitário e meio apertado de dinheiro. A questão toda é o trabalho interior que se faz. Esse é o ponto.

(Essa foto aí de cima não é minha) Sigo em Puerto Escondido, bem ambientado e tisnado de sol e sal. Temos muitíssimos gringos por aqui (engraçado, também sou um deles mas não me reconheço tanto como um gringo), de todas as partes e com todas as tatuagens possíveis. Hoje pela manhã comprei minha ida para a cidade de Oaxaca. Mais uma cidade e todas as coisas que seguem disso: procurar lugares, conhecer, caminhar, ver maneiras de economizar todo dinheiro possível... Tenho já lugares investigados para pousar. Um HI e uma dica de meu amigo mexicano. Estou sentado na escada do meu quarto, olhando a praia, lendo e escrevendo. Tem um vento forte aqui hoje. Tomei um banho de mar pela manhã e no fim da tarde sempre rola um banho mais. Não sei dizer ao certo o que são os mexicanos aqui desta praia. Afora sua cor de barro queimado, os que vivem na beira da praia me parecem sempre mais sorridentes dos que transitam por perto do mercado e da rodoviária. De qualquer maneira, estão sempre dispostos a te ajudar bem ajudado e realmente se preocupam com suas respostas e entendimento. Ontem à tarde lia meu livro sobre América Latina e se aproximou um canadense com uma lata de cerveja. Jogamos uma partida de xadrez na beira da praia. Jake, esse era seu nome, me ganhou. Depois chegou seu amigo Marcus. Ele falava espanhol e as coisas fluíram mais. Eram gringos como são todos os gringos: trabalham um pouco em seus países, juntam uma grana, escolhem um país, compram um carro e caem fora a percorrer tudo. Ao final, curtimos umas cinco horas de praia e me pagaram umas cervejas bem geladas. .................................. O vento diminui e o sol está um pouco mais fraco. As ondas seguem seu trabalho ininterruptamente. Num bar aqui da beira da praia rola um som meio balada, creio que um Dire Straits ou algo do tipo. É uma boa levada para um clima desses. Sentado na areia, protegido pela sombra duma rústica casa de salva-vidas, eu vou tentando sacar qualquer coisa. É como se todas as lutas não mais existissem. Tudo é praia e esses turistas que nunca ouviram falar em Fórum Social Mundial. O som embala meus sentimentos. Agora a pouco estava tomando uma cerveja e transitando pela internet, falando com amigos de minha cidade. E num passado logo ali, conhecia pessoas e vivia uma relação de troca e descoberta que frase alguma no mundo algum dia irá transmitir o que foi Peace Boat. A amizade dos japoneses desconhecidos e dos que se aproximaram para tristemente se despedir. A curiosidade das convivências e a estranheza das línguas e modos culminavam sempre num fraterno sorriso e numa caminhada pelo deck, a observar o mar, a perder-se nos horizontes e em pores-do-sol inacreditáveis, com olhos iluminados por qualquer esperança e um ar bobo de fim de dia. Era uma ilha de tarefas coletivas, passatempos artístico-culturais e contato. Eu zanzava por todo o barco e via relacionamentos já distensos por dois meses e meio de viagem. Tínhamos uma legião de jovens japoneses que nos ajudavam com artes e agrados. Deles, saiu o maior presente de despedida, a voz embargada de uma amiga japonesinha agradecendo o encontro de nossas vidas. Depois tudo foi se apagando em infinitas despedidas. Para tudo isso não fizéramos muito. Nem nós, latinos, nem eles, japoneses. Apenas ficávamos próximos, observando-nos, deixando correr energias de países tão distantes, sentados num sofá e sendo sinceros com o mundo. Somente isso criara laços incríveis de amizade e bom contato. Agora, como uma onda que deixa sua marca na areia e volta ao oceano, sinto tudo o que aconteceu e aguardo voltar a um lugar. Por enquanto o México se descortina em suas pontuais especificidades. O sol se põe e as baladas continuam. .................................. Saí de Puerto Escondido faz muitíssimas horas. Ao pegar o ônibus e em todo o percurso estava um pouco nervoso e atento. Porém nada mais passou além de uma viagem de sete horas por entre uma cadeia de montanhas que parecia milhos de uma espiga. Foi cansativo. Quando cheguei na rodoviária de Puerto Escondido, a velha me disse que meu ônibus das nove e trinta da manhã não sairia. Minha nóia sagrou-se campeã e acabei viajando num ônibus de um velho que me poria em um outro ônibus no meio da estrada depois de quatro horas de viagem. E bueno, tudo saiu bem e cheguei salvo na belíssima cidade de Oaxaca, num albergue indicado por um amigo. Escrevo agora em meio a leves delírios que o cansaço e a cerveja produzem. Meus olhos doem mas estou desperto.
Hoje fomos a Hierve el Água e a Mitla. O primeiro está a quase dois mil metros acima do nível do mar e são como águas que nascem de rochas e formam piscininhas numa paisagem incrível. O segundo são ruínas. E ruínas me enchem o saco sempre. Poderia ter usado a grana da entrada para comprar algum dos presentes que vendiam aí. De qualquer forma foi um passei de umas seis horas com muitas pessoas e caminhos e muito sol. Na chegada comprei legumes e massa e cervejas e comi e bebi como não fazia há muitos dias. Muitos mesmo, porque estava passando a pão, bananas e suco de laranja de marca Lala. Agora aqui no albergue tudo está calmo. Os gringos tergiversam, lêem, comem..., às vezes vemos a internet. Tudo numa boa.
A cidade de Oaxaca está ótima para o turismo. É muito histórica, com prédios e tudo, com muitíssimos bares e praças e pessoas amáveis. Saindo do centro histórico é suja e rápida como qualquer ralo do mundo. Chegamos por aqui e era o dia nacional do professor. A cidade fervia com os caras que botaram pra quebrar ano passado naquelas histórias da APPO (Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca). Fazia tempo que eles não saíam às ruas. O governo já assassinou quase cem dirigentes e muitos se entregaram para seguir articulando o lance todo de dentro das prisões. Via a cidade tomada de pichações contra o assassino-governador URO (Ulysses Ruiz Ortiz) e umas 30 mil pessoas manifestando pelas ruas. O governo rapidamente tinha trabalhadores que pintavam por cima das pichações e ninguém distribuía livremente panfletos: estão proibidos. Uma cidade histórica com vida política ativíssima. Um bom lugar.
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