
O barco é grande e branco e falo sobre ele depois. Por hora, basta que a visão é esta: eu de costas para o navio e as águas do mar; em um elevado, o asfalto que meus pés pisam segue por uns setenta metros onde estão umas tendinhas com artesanias caríssimas. Ao menos se eu fosse artesão poria um preço alto para os japoneses e seus yenes; logo após a cerca, uma avenida e começa a subir os gigantescos morros com suas casinhas pobres. Entre uma música ensurdecedora com ritmos locais e outra música também ensurdecedora e também local, um tipo magro e de barba repete por quantas vezes for possível coisas como o porquê da festa e, claro, num país socialista como estamos, convida os vizinhos pauperes a participarem do evento, sendo eles a alma da Venezuela. E, claro, também solta inúmeros “bolivarianos”, fala de paz e de integração e ninguém sabe de sua vida nem pensa sobre isso. Mas vá saber que tipo de vícios alimenta e quais “socialismos” lhe fazem melhor. O fato é que cinco dias atrás cheguei a Caracas depois de dezenove horas de aeroportos, céu, comida gorda e gente “transnacional”. Não só os aeroportos são desterritorializados, as pessoas que vivem e propagam esse ethos também o são. Laptops, celulares espertos, roupas mundiais e um par de olhos aborrecidos os acompanha. Ás vezes também são olhos vidrados e super ligados, mas logo se aborrecem de algo; há que se observá-los por longo tempo. Eu não sei qual minha nota na composição desse estranho cenário, mas estava lá e sem espelhos. O sol vai se pondo. As últimas folhas escrevi de um suspiro e agora levantei os olhos. O sol se põe a minha direita e faz um bonito reflexo com a ajuda da água singular do porto. Os venezuelanos me parecem espantados com o barco e tudo que acontece e estão curtindo com muita animação. Desde a terça-feira nosso hotel foi enchendo aos poucos. Creio que também coloríamos aquela tristeza toda. Estávamos perto da praça Venezuela, uma região como as cercanias de qualquer rodoviária dos povos esquecidos. Bruno Hotel se chamava o tal. Por alguma razão falaram que o dono devia ser italiano. Não sei. Em toda a volta, hotéis de uma noite, bares com um tipo correto de movida e, depois das 22hs, não se recomendava estar pelas ruas. Um problema como os problemas que há em regiões como essa e também com a polícia, suas caras de juventude malvada e as propinas. Os policiais são muito jovens aqui em Caracas. Um desses se aproximou de mim, me via de longe e, em meio ao grupo inteiro, me pediu uma identificação. Tinha os olhos trincados e os gestos tensos e me fez algumas perguntas nervosas caminhando sempre em minha direção, como que querendo imprensar-me no muro. Os outros logo sacaram o que acontecia e os venezuelanos, funcionários do governo, deram um jeito na situação e me fizeram economizar alguns bolívares. Minutos depois, o mesmo sucedeu com um companheiro atrasado. Não lhe tiraram propina possivelmente porque era de língua espanhola e mais esperto que os garotos-policiais. Assim que, em Caracas, evite passar perto dessa juventude fardada que está pelos bairros com cara realmente latina. De todas as formas não tivemos mais problemas aí. Comíamos cachapas e arepas com suco, alegrávamos os garçons sedentos por câmbio e íamos nos conhecendo. Também circulamos bastante por onde está o governo. Uma região central perto da casa de Bolívar, que conhecemos e a vamos esquecer tão rápido envelheçamos uns dias mais. Camelôs, fuligem, restaurantes barulhentos e engordurados, gente correndo, cenhos franzidos e aquele tipo desesperado de capitalismo que penetrou nas pessoas e que agora o forçam a ter um aspecto mais humano num país socialista se faziam perceber em olhares e gestos transbordantes. Seu metrô é igual a todos os metrôs, leva e trás infinitamente as peças de alguma coisa maior. Foi o que conheci em Caracas. Não vi os ricos e não sei exatamente seu tipo de classe média. Vi que de outras cidades grandes e em “vias de desenvolvimento”, esta tem um rosto indígena que não se vê muito de onde eu venho. Sigo escrevendo e tem um garotinho gordo e todo duro ao meu lado. Faz um esforço grande para desdobrar as pernas. Outros dançam e muitos cospem no chão, tranqüilamente. Ergo os olhos e alguém sacode e pendura roupas numa casa muito longe no morro das casas pobres. Um cara já cuspiu umas dez vezes e agradeço por não ser um dia de muito vento. Passa um cachorro feio e uma ambulância. Passam muitas coisas e a cerveja corre solta. Anoitece e todos vão dançando mais. Os japoneses aparecem. O cume dos cerros é verde a partir de uma pouco mais da metade e penso em quanto tempo vai demorar para que estejam tomados de pobreza. Ainda que pobreza com um tipo de educação, com alguma assistência à saúde, é pobreza. Enquanto isso, 3% do mundo goza de coisas inimagináveis e pensam em maneiras de habitar Marte. Por toda à noite e já bem integrados, japoneses e latinos dançaram e se divertiram ao som de reggaetons sinistros. Faziam dancinhas circulares, aprendiam a bailar, coreografavam sua comunicação e construíam também por coreografias algum tipo de reconhecimento que os aproximasse, mesmo que em breve tudo fosse desconectado e todos retomassem suas vidas e suas viagens. De todas as formas, ninguém nunca saberá o que esse encontro produziu em almas tão distantes. Algumas impressões iniciais antes do barco zarpar e eu me abandonar depois ao bom acaso no litoral mexicano. ................
Creio que é nosso segundo ou terceiro dia de viagem. Chegamos no porto do Panamá pela manhã e me despertei meio alto e com o navio parado. Como não tínhamos nenhuma tour programada, muito rápido fomos para uma praia que se chamava Langosta e passamos o dia aí. Uma praia bonita e sem ondas onde numa de suas pontas vão construir um resort enorme e para isso estão despejando moradores nativos para algum outro lado onde não atrapalhem. Afinal, beiras de praia são para ricos. Todos no Panamá falam inglês. Acho que inclusive estes que estão sendo expulsos também falem. No ônibus que nos levou à praia, fomos passando por partes de vida da região. Algumas favelas verticais, sujeira pelas ruas – mas não tanta -, negros e nem tão negros e muitos outdoors vendendo saúde e beleza – todos eles em inglês e com brancos. Nessa praia sem ondas fizemos nosso paraíso. Tínhamos sul-africanos, australianos, norte-americanos e uma espanhola, bolivianos e brasileiros, todos se conhecendo e construindo percepções e cantando músicas ou sonhando suas coisas. Do deck frontal do navio, de onde escrevo, a cidade se espalha com suas luzes desde minha direita até meu centro, e as luzes que seguem o horizonte até minha esquerda são de inúmeros navios em fila para passar o canal. Nunca tinha pensando num engarrafamento de navios e é incrível a cena. Coisas flutuantes que agora brilham e eu estou dentro de uma destas coisas. E uma cidade que também é uma coisa e também agora brilha em terra firma. ............................. Bueno, voltamos ao mar que agora é Pacífico e a coisa voltou a balançar. Todos assistem a apresentação dos tranqüilos bolivianos e todos torcem por eles. São puros e tranqüilos e humildes e amáveis. Entre outras coisas, de tantas que ainda estão por serem escritas, hoje fizemos uma prática de shiatsu com boa participação. É o Dia da Terra e todos tem muitas coisas a fazer e atividades a participar. A coisa toda está muito suave, muito suave. Já é nossa casa: amigos, comida, mareios, miles de japoneses que se vão juntando à loucura latino-americana. Alguma coisa vai acontecendo por aqui. Não se a pode pegar e nem saber o que é, porem se desenvolve e está por todos os lados. Os bolivianos estão em trajes típicos e a apresentação vai tranqüila. Vou escrevendo porque estou meio nervoso por eles mas é uma bobagem porque estão se saindo muito bem. Maria colocou um gorrinho e uma mantinha rosa e todos se divertiram com isso. Estive antes falando com Mariano, um dos professores de espanhol, e me contava de seu trabalho na Coréia do Sul com velhinhas que foram abusadas por japoneses na sua Guerra de 1910-45. Foi foda porque é uma história foda, mas o trabalho de não-esquecimento que fazem é legal. Também trabalha num ONG coreana que dá assistência a crianças de rua. Fotos e tudo e um papo sobre o mundo e tudo culminou num mesmo entendimento de mundo e agora aqui na apresentação dos amigos bolivianos. Creio que teremos saudade e terão saudades nossas as pessoas do barco. E bueno, faltam ainda uns cinco dias e eu já falo de saudade, vai saber...

Ia me esquecendo: hoje passamos pelo canal do Panamá e andares de água são uma coisa bem doida. São três níveis de água porque a parte do oceano atlântico/rio é mais baixa que a do rio/Pacífico. Então vão enchendo aquários, o navio sobe e assim por diante até um lago gigantesco e um novo elevador de água que te baixa até o nível do Pacífico. É uma função que leva oito horas e os elevadores como uma hora cada um. Todos se apertam e tiram muitas fotos de qualquer coisa que se move ou que está parada e tudo com aquele cuidado japonês que é incrível e silencioso. ............................................... Sábado, creio. O ar está um pouco mais pesado pelo barco. Também o tempo está nublado e este lado do oceano me parece mais triste e cansado. O mar respira com certa dificuldade. Ele todo se entende e se respeita, como que não lutando mais, desistiu do que fosse. Há algumas gaivotas voando por aqui. Acompanham o barco e quando enxergam um cardume se atiram para o fundo do mar. Acompanho suas aventuras faz um bom tempo e já pus nome em cada uma delas. Tem as asas grandes e cinzas. O peito e a face brancas com olhinhos bem negros. Quando se atiram ao mar usam o navio como quebra-vento. Assim que voltam planando e chegam a meio-metro da guarda do navio. São tão leves e ocupadas. No horizonte da direita uma cadeia de montanhas de algum país nos acompanha. E também o sol vai se pondo e então temos gaivotas arteiras, montanhas e cores especiais. Nesta região não sei por onde os monstros caminham, ou flutuam, ou bóiam ou nadam cachorrinho. Noite: 23hs
Banda ao vivo. Tocam Beatles, Hey Jude. Boa banda, suave, em sintonia. Enfim, é um cruzeiro e num cruzeiro temos de tudo. E temos uma banda tocando com um globo de ouro girando bolinhas por todo o ambiente. Isso deixa tudo infinitimamente mais doido. Agora todos se foram ver um filme a agora outros chegam e a banda foi embora. Ninguém pôs um cd e estamos se um “ambiente”. .................................................... Hemingway’s Bar, quase 17hs, creio. Tomo um café preto fraco e olho pelas janelas que temos aqui. O oceano está calmíssimo. O barco quase não balança e ontem vimos centenas de golfinhos pulando e brincando com as ondas que o navio faz. Todos correram e gritaram para eles e as fotos devem ter ficado ruins porque o sol já tinha ido embora e a luz estava ruim. Eu pelo menos tentei duas fotos e desisti. Assim que tivemos gaivotas pertinho e golfinhos lá embaixo. Estamos por chegar em El Salvador e ficaremos lá por dois dias numa tour.

Um ônibus, trinta e poucos japoneses, dois tradutores e nós. Chegamos num bairro de periferia em San Salvador para conhecer a sede de um movimento das costureiras da região. Começaram com uma luta pelo reconhecimento dos direitos trabalhistas das mulheres e logo partiram pra uma luta de gênero e educação. Não se precisa aprofundar muito essa questão porque é como em qualquer país subdesenvolvimento. Mudam os nomes e os rostos. Comemos aí. Uma refeição simples junto com a comunidade envolvida. Após, nos dirigimos a uma cooperativa num povoado distante uns 80 km da cidade. Ali nos receberam com balões e caras espantadas. Hospitaleiros, organizaram-nos em mesinhas e, um a um, iam chamando por nomes junto às famílias que nos abrigariam por uma noite. Alojados, jantados e apresentados, íamos entendendo sua situação. Muitos dos campesinos tinham marcas da guerra civil salvadorenha que arrasou o país. Ou, melhor dito, a parte pobre do país. Faltavam mãos, braços, pernas, lucidez. Os mais velhos haviam sido guerrilheiros; os pais e mães de agora haviam servido de correio humano, entre pueblos ou entre países; e agora as crianças tratam de recolher os cacos. No dia seguinte a nossa chegada brincamos um jogo japonês. Não me lembro a onda do jogo. Éramos latinos, 4 japonesas, umas 5 crianças das duas casas que estávamos hospedados e aí nos divertimos por horas a fio. Viviam como em uma chácara, em meio a muita natureza e tratavam de seguir suas vidas. Nós chegamos e participamos de um breve instante. Não nos entendíamos por palavras. O sorriso bastava.

Essa cooperativa dos campesinos da região é grande e trabalham aí com camarões, peixes, agricultura de alguma coisa e tentam fazer algo com turismo ambiental. Fomos embora. Os que não dormiam navegavam em seus estranhamentos, talvez comparando vidas.
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