terça-feira, 12 de junho de 2007

Parte. 3

Hoje fomos a umas ruínas de nome Monte Albán. Zapotecas, ouvi falar. É um sítio arqueológico bem grande, com muitos prédios, grama verde e uma boa vista panorâmica. Estivemos aí como umas três horas ou mais e voltamos e comemos num mercadão público e depois fomos ver umas artesanias. Agora bebo umas Coronas com os gringos e já vi a internet e foi um ótimo dia. Uma portenha chegou com um mate e estou como que em casa. Em retrospectiva toda essa história segue bem viva e todavia sigo com falta de muitas coisas. Ainda há muito que ir vivendo por aqui. Restam-me como uma semana de México e vou encontrar um amigo no DF. Tudo vai seguir como até agora, um pouco de vento e destino e conhecer o que apareça.
Hoje é daqueles dias do ciclo em que tudo se acabou. Uns amigos foram embora, os passos pelas ruas são muito lentos e difíceis, tudo é longe e o sol arde mais. Também não há muito para fazer e os rostos todos parecem muito próximos do teu. Ainda mais o sono vem e vai e você olha seus pés e estão pretos de sujeira. Fui até o terminal de segunda classe que fica no outro centro da cidade. Um centro terrível como qualquer outro: cinza, sujo, público demais. Depois cheguei no centro histórico e uma loirinha brincava no seu Apple branquinho, sentada num murinho. Limpa e despreocupada. E na verdade isso tudo pouco importa porque são cotidianos de todas as partes. Somente foi o que eu vi. Comprei minha ida para o México DF porque se acabou meu tempo em Oaxaca. Sem mais amigos, lugares a conhecer e criatividade para a escrita. São como três da tarde e até minha partida temos o infinito da observação do minúsculo. Segue-se à tarde. Alguém cozinha com alhos lá no fundo do albergue. Muitas pessoas chegam e saem e chegam e saem novamente. Eu vejo tudo, escrevo e vou à internet a ver respostas. É como daqueles dias que, em casa, não se quer fazer nada. Está bom assim. Sem fazer nada e amanhã chegar na cidade do México e estar bêbado de muitas coisas. Ainda que seja uma cidade bem grande, suas especificidades devem ser gigantes. Acho que o mundo está nesse albergue. Muitas nacionalidades e muitos humores distintos. O saco de cada um enche de maneiras quase iguais. Não importa muito o idioma. Tem uns muito simpáticos e outros parecem espiões de qualquer coisa. De todos modos é um bom albergue. Dá vontade de ter um. O dono do albergue tem o controle da net. Mexe canais e quando encontra alguma coisa um pouco mais interessante inventa de mexer nas cores, no brilho e no contraste. Faz isso sem parar e vai embora. Um tempo depois ele volta e faz os mesmos comentários e gestos. Sai outra vez, brinca com o cachorro, incomoda um pouco os viventes e volta. Fica me olhando escrever e trocando de canal. Eu não dou um pio. Tem um cara aqui que é a cara do Jack Johnson, e seu amigo parece o Biff do “De volta para o Futuro”. Eles jogam damas. A casa onde está o hostal teve o muro da garagem destruído. Assim que quando se entra pela porta principal, à esquerda está o antigo lugar do carro que agora é a sala da tv, que se separa da entrada por um vaso comprido. Logo à direita, bem na frente de onde estou, está o escritório e guarda-mochilas. Em seguida a casa se abre num pátio semicoberto decorado com bandeirinhas locais e dois computadores com internet, um banheiro e três quartos seguem como um “c” na casa. Atrás disso tudo, a cozinha. No centro do pátio mesinhas e uma escada que leva a um segundo andar, bem aberto e arejado, com mais uns quatro quartos e o banheiro masculino. Seis e meia da tarde. As coisas andam. O labrador corre atrás de sua bolinha e todos riem.

A viagem para a cidade do México foi tranqüila. Do hostal para a rodoviária fui de táxi, claro. Era tarde e um pouco de conforto e segurança me tranqüilizavam. Na rodoviária a sala de espera da empresa que me carregaria até a capital estava apinhada de gente. Fiquei de pé sentindo cheiros e estudando possibilidades de pôr minha sacolinha de grana nas minhas cuecas. Tudo saiu bem e entramos todos organizadamente no ônibus. Como em toda viagem e como em todas as viagens, separei-me de bons amigos. Basicamente de uma francesa mais senhora, de um israelense e de uma alemã. Havia outros, porém com estes estive por mais tempo e percorri muitos e bonitos lugares. Não sei se os encontrarei outra vez. Assim é a vida. No curso da viagem a polícia parou o ônibus por três vezes. Em duas delas tive que descer. Na primeira, o policial subiu no ônibus, me mirou e veio reto, “Identificacion!”. Na outra parada o mesmo policial pediu-me para descer e ficou um bom tempo estudando meu passaporte. Não sabia como ler as informações principais, tentou inventar problemas e por fim viu que eu tinha ido parar no México por um cruzeiro e me deixou em paz. Havia um mexicano sentado ao meu lado e os policiais em todas as paradas também o investigaram. Creio que pensavam que ela era um tipo de guia que me levaria até alguma barbada para atravessar a fronteira com o Império. Na última parada, no frio da madrugada, outros policiais chamaram a polícia de imigração e estes lhe disseram, “Gordo, el tiene visa!”. De fato os policiais não sabiam como extrair informações do passaporte. As conversas todas foram muito calmas e sempre me perguntavam se eu tinha ódio dos norte-americanos. Não sei ao certo porque. Esqueço de comentar que quando entramos no ônibus, o chofer demorou muito tempo para começar a viagem e estávamos aí com todo o calor mexicano e com caras que sobem no bus e vendem aos gritos o que quer que seja. Por pura sorte, o primeiro vendia cremes para dores musculares e dores nos ossos, creio. Era algo milagroso e aprendi muito sobre espaldas. O segundo tipo vendia o melhor curso de inglês do México e um terceiro transava com colírios. E tudo isso num calor e impaciências crescentes. Todos venderam bem. Por fim desembarquei depois de oito horas de viagem e fui de metrô até a casa de meu amigo, ao lado da UNAM. Agora enquanto escrevo, já depois de 36hs de capital e alguns miles de kms de metrô, estou no seu apartamento e algum vizinho escuta uma salsa a todo o vapor. Uma mulher xinga seu cachorro lá embaixo e Oliver toma um de seus intermináveis banhos. Já conheci, louco de sono e café, o excelente museu nacional de antropologia e passamos o fim de semana no lugar onde vivem seus pais. Uma cidade da região metropolitana, bem boa. Sua família é amável e receptiva. Comi, caguei, tomei cevas e falamos sobre os problemas latino-americanos. Esses são meus dois dias de México.

Segunda de noite. Tomamos umas cevas antes de dormir. O dia hoje foi bastante sossegado. Fomos em algum horário a UNAM. É uma universidade gigantesca e aí nos quedamos e dormimos em algum gramado por horas. Éramos nós de ressaca porque na noite passada curtimos um pouco no seu apartamento. Depois disso percorri a cidade pela Avenida Insurgentes e foi bom ver a cidade própria e não somente a escuridão do subsolo. Hoje era o dia de uma greve geral dos professores e algumas outras categorias e o centro estava em chamas . Manifestações por todos os lados que se encontravam no Zócalo, e esse é um tema à parte porque é um lugar impressionante. E com manifestações populares a vista fica muito melhor. O Zócalo é a praça gigantesca e fora do nível onde está a catedral, o palácio do governo e outros prédios históricos meio assustadores e hotéis também assustadores. Toda a região central da capital tem uma arquitetura espanhola linda e bastante velha. Caminhar por aquelas ruas é uma viagem no tempo. Ainda mais encontrando todos os dias que fui lá manifestações por alguma coisa. As últimas eleições que foram fraudadas pela direita ainda vão dar muita dor de cabeça pro Presidente fraudador. Enquanto isso o outro, Obrador, percorre o país num governo paralelo, ao mesmo tempo em que também Marcus, o zapatista, dá suas voltas e prepara a todos para se levantarem 2010. Todas as datas revolucionárias mexicanas foram nessas datas: 1810, 1910 e, quiças, 2010. Talvez não chegue até lá.

Miércoles. Esperamos para ir a Teotihuacan. É cedo e vamos pela segunda caneca de café. Ontem foi também um belo dia. Estivemos outra vez na UNAM, compramos coisas e a tarde conhecemos o Museu de Belas Artes onde estão os murais de muitos artistas. Aí nessa rua onde está o Museu, uns campesinos de Vera Cruz faziam uma manifestação. Estavam todos peladões ao longo de toda a avenida. Era uma cena raríssima, ótima. As pessoas passando e eles peladões e gritando palavras de ordem. Basicamente queriam justiça contra um ex-governador deles que lhes sacou terras. Depois fomos ao Tamplo Mayor, onde, ao lado do Zócalo, encontraram ruínas de Tenochtitlán que creíam estar abaixo da catedral. Mas não, a catedral foi construída com as pedras desse templo antigo. Muito mais fácil. Grandes e sempre reconstruídas ruínas e um museu bacana tínhamos aí. Entre todas as coisas íamos comendo típica comida mexicana, feita nas calçadas mesmo. Sempre com nomes estranhos e gosto bom. Também demos uma caminhada pelos camelôs e suas bugigangas chinesas. À noite, após desencontros de cidade grande, comemos tacos, tomamos cevas com outros amigos num lugar ótimo num bairro chamado Coyoacan. .................................... É muito estranho tudo isso. Alguma coisa sempre acontece e ela sempre é muito suave e poucos percebem a força com que se movimenta. Na verdade não sei muito bem do que falo mas é um pouco isso mesmo. De todas as maneiras, hoje fomos bem cedo à cidade de Teotihuacan.Vimos àquelas coisas todas de Templo do Sol, da Lua, o Templo de Quetzalcoatl e todas as suas ruas e vendedores que tem de tudo. Muito pensava sobre os gregos, coisas do tipo “que se fodam esses gregos”. É impressionante a cidade toda. Foi a maior cidade do mundo na sua época. Atingiu 25 km² (??) e circulavam por ali como 100 mil pessoas. Na verdade, Teotihuacan e Tenochtitlán eram cidades muito grandes. Muitos relatos de marinheiros e que conheciam o mundo todo da época diziam que não havia nada igual a estas duas cidades. E nós aqui, chupando o dos gregos... Enfim, fomos e compramos lembranças e saímos fora correndo por causa da chuva. Tudo esteve bem tranqüilo e suave.

Na última noite no México tomamos um monte de cerveja num bar qualquer de um lugar chamado La Condesa, e depois fomos num apê onde está ficando um amigo. Por lá confraternizamos um pouco e eu me morri num puff fofinho. Na manhã do outro dia fazia minha mochila de cabeça pesada e um sabiá cantou. Via estrelinhas, tomei água e cheguei atrasado ao aeroporto. Tudo com meu amigo e anfitrião Oliver é na base do atraso. Enfim, umas quinze horas depois estou outra vez na madrugada de Guarulhos. Olhos pesados, um cheiro singular, pés doídos e outros zumbis viajantes. Essa luz branca daqui deixa tudo mais feio e doente. No segundo vôo desta volta um filme passava nas telinhas do avião. Não sei o nome, mas era a história de uma professora que chega para dar aulas numa escola da periferia dos EUA. Ali tem violência típica dos subúrbios e muitas raças se odiando entre si: chineses, negros, latinos... É uma história bonita, real e me fez chorar. Enquanto todos dormiam minhas lágrimas iam escorrendo pelo meu rosto. E nisso estava contido tudo, toda a viagem e as conexões. A experiência no barco e a vivência nas ruas do México. Amigos que partem como chegaram deixando somente um rasgo em nossos corações. O filme acaba e me ajeito no banco, olho para trás e tem um senhor que via o filme e que tambem chorava. Todos dormiam e eu olhava o filme e seus significados e olhava também para fora e a noite estava muito clara. Lá embaixo as luzes das cidades criavam formas alienígenas e a lua ia se pondo no horizonte, muito vermelha. Da mesma forma que por muitas vezes vi o sol se pôr nos oceanos, na linha onde céu e mar se conheciam, agora a lua se apresentava de outra maneira para mim, e logo se ia embora como muitas coisas foram embora nesta viagem. Ainda tenho umas cinco horas de limbo e um vôo mais. Em breve chego aos meus.

Porto Alegre. Cheguei e o feitiço da viagem dá outras cores às coisas de sempre. Em breve isso acaba e o cotidiano tentará engolir as possibilidades de se caminhar por calçadas diferentes. É uma luta a se travar e no final nem é uma luta porque ganhamos e perdemos e vamos assim até o fim de nossas vidas. Reencontro amigos, lugares, objetos, parques, paranóias e antigas coisas que também não se pode pegar. De tudo, mastigo impressões. A maneira como tudo te afeta necessita de mais perspectiva, creio. Lados se aumentam e também o espaço entre as palavras, como os olhos que buscam algum outro espaço no espaço quando se tem que falar sobre o que foi passado. Um barco branco e grande; uma ilha flutuante de utopias, conhecimentos e curiosidades; latinos distintos, japoneses amáveis, amigos tradutores e tripulação; altermundismos e suas lutas; convívios, perdas e as ruas vazias de um México em ebulição.

Foi uma canção que escutei e que agora só posso assobiar.

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